“Bem-vindo à Casa de Bonecas” (1995)

8Com este filme pouco conhecido comecei meu caso de amor com o controle remoto e a TV a cabo. “Bem-vindo à Casa de Bonecas” – filme de 1995 dirigido por um então desconhecido Todd Solandz – não tem, a priori, nenhum atrativo. A começar pelo título, um tanto quanto infantil/pré-adolescente, e, ao ver um dos pôsters dele, você tem a certeza de que realmente é um filme direcionado a este público, só que com atores e diretor toscos. Era essa a impressão que eu tinha antes de ver. Antes. Em uma daquelas tardes calorentas sem porcaria nenhuma pra fazer, pensei em dar uma chance a ele. Mesmo com tudo conspirando contra o pobre, mudei para o finado Telecine Happy e comecei a assistir. 

Um dos primeiros filmes do diretor Todd Solondz – que durante os anos 90 se consagrou como um dos mais talentosos diretores do cinema alternativo americano -, “Bem-vindo à Casa de Bonecas” é um retrato da fria sociedade americana, sobre tudo em um dos redutos onde ela pode ser mais cruel: na escola. Ainda mais para uma menina que está passando da infância para adolescência e não é exatamente atraente, apesar de todas as boas intenções para com seus entes. Dawn Wiener, interpretada brilhantemente por Heather Matarazzo (“O Advogado do Diabo”, “O Diário da Princesa”, “Pânico 3”), é um dos personagens que melhor personificam o loser americano. Apesar de ser uma menina de bom coração, é ridicularizada e humilhada por amigos e familiares, e tenta de todas as maneiras se tornar alguém agradável para quem sabe um dia ter a atenção dos pais (que dedicam tempo quase que integral ao filho inteligente e à filha mais nova da família, uma bailarinazinha pentelha) e ser admirada pelos colegas.

O grande diferencial do filme é que, diferente dos típicos filmes hollywoodianos, Dawn não se torna numa diva loira e bem arrumada da escola, e sua saga é retratada ao mesmo tempo de forma angustiante e cômica, provocando sentimentos antagônicos nos telespectadores – coisa que só o Solondz pode fazer. Em um dos momentos mais engraçados do filme, Dan chega ao fundo do poço ao permitir que um colega da mesma faixa etária a estupre, pensando assim se tornar alguém “cool”. Fora o final do filme, quando sua irmã desaparece e, em uma tentativa heróica de se tornar importante, vai atrás da menina em outra cidade. Claro que eu não vou contar o que acontece porque vocês vão ter que ver o filme (dã).

Cheio de diálogos inteligentes e engraçados, “Bem-vindo à Casa de Bonecas” é um clássico do cinema alternativo americano nos anos 90, que revelou para o mundo Todd Solondz, um nerd tipicamente loser que conseguiu captar o quão crua e podre pode ser a sociedade americana, só que com um humor bastante ácido. É incrível a capacidade que um filme dele tem de causar sensações tão distintas. Em “Felicidade” de 1997, por exemplo, entre várias estórias, Solondz retrata a rotina de um psiquiatra que vai até à casa dos coleguinhas do filho para molestá-los. Onde pedofilia poderia se tornar tão engraçado? Só num filme de Solondz.